29/09/09

A canceriana é noite de lua cheia.

O céu tava azul cor de devaneio sem fim. Circo deserto, eu e a lona no meu horário de almoço. Domingo sabor ruflles e coca light.
Um mês para acabar meu contrato. Intuição, dúvida. Sensibilidade ou sentimentalismo?
Humor inconstante já beirando a insuportável, variando entre uma Juliana acolhedora e distante, ranzinza e pacífica; mas no geral extremamente carinhosa e afetada por manifestações externas, como qualquer pessoa que nasça entre final de junho e julho e que esteja a um passo de ir de encontro ao novo. Transparente e sonhadora, sigo sempre o que meu coração diz; mas ele já errou demais e arriscaria até a dizer que chega a ser um sem-noção de nesses tempos ainda esperar uma rasteira pra ficar pé atrás com alguém. Sinto medo.
Falo com meu pai ao telefone, aquele de importância extraordinária na minha vida. Ouço um:
-Você sabe o que faz.
Mas eu não sei! Eu nunca sei.
E me questiono se ele realmente pensa isso de mim ou foi só mais uma tentativa de apoiar minhas escolhas incondicionalmente. Fico com a segunda opção. Lembro da minha mãe e relembro uma cena, eu a pegando no colo e ela gritando:
-Pára filha… Sua boba… E no meu colo não havia distinção de papéis. Não tinha mãe nem filha. Só grandes amigas, as melhores do planeta.
Passa uma borboleta amarela por mim e sei que ela ri em forma de vôo bonito e que aparece só pra não me deixar esquecer nem por um segundo da força dos milagres diários, das lembranças de Deus.
¿¿ ¡¡ Fragilidade [NÃO] é fraqueza ?? !!
Viver é charada, pergunta valendo 1 milhão daquele programa popular. Poucos anjos em forma de Dalai Lama ou Madre Teresa já nascem com a resposta. E por caridade, existe a tentativa de iluminar seus irmãos humanos. Como quando se pede a opção “Ajuda aos Universitários”, e o participante fica em dúvida se eles estão mesmo certos e acaba escolhendo aquela alternativa que nenhum deles sugeriu.
Ao som de “Gravity”, de Sara Bareilles, sinto que o simples vai seguir sendo difícil até a hora de acordar nesse céu cor de ruffles, vôo de coca e sabor de devaneio.
Queeununcadeixedequestionaracreditarsorrireamaramém.

12/09/09

Godzilla Vieja



Tudo começou com a gente dormindo junto. Na primeira noite eu parecia um bebê lindo. Na segunda eu virei uma pedra e na terceira escutei:
-Bb, você ronca.
-Ai, nada disso. Eu não ronco não. Olha, quando tô assim meio gripada eu respiro pela boca, é diferente de roncar.
- Amor, você ronca sim. Muito. Parece um Godzilla (aquele monstro horroroso japonês).
De bebê a monstro mal-feito. Como admitir uma coisa dessas?
Sempre cultuei toda a arte da minha feminilidade ao dormir, principalmente acompanhada. Pele, toque, saliva, orgasmo e sono( e raríssimas vezes um caretinha entre esses dois, afinal, melhor que fumar depois de comer é fumar depois de ser comida, sempre consciente que o certo é não fumar nunca, jamé. )
Como eu, loira, cabelos compridos, corpitcho bacana, esmalte vermelho, cheirando coisa gostosa, posso admitir que ronco feito meu avô com apnéia? Afffffff, broxante.
-Claro que é essa gripe, me dá uns dias e você vai comprovar que eu não ronco(ou terá a feliz oportunidade de consertar essa cagada de falar demais e dizer que nunca mais ouviu barulho nenhum à noite e que devia ser culpa da gripe mesmo, eu continuo sexy até no décimo sono).
Godzilla, essa é boa.
Chego aqui no circo e as fofocas correm mais que pobre dentro dessas lojas de crediário em dia de liquidação total. E até as crianças se interam que eu tô namorando. E me enchem de perguntas: se ele é bonito, de que cor, que altura, se é careca, quantos anos tem e por fim… do que ele me chama, que apelido.
Acho muito mais interessante dizer àquele monte de pitchuquinhos que ele me chama de Godzilla que de bebê, vejo a atenção daqueles monstrinhos deliciosos ao meu discurso e sei que eles não esperam uma história qualquer.
Depois de explicar que ganhei esse nome porque ronco feito monstro com fome de destruição, sou obrigada a imitar uma Godzilla fazendo sons esdrúxulos atrás deles, só pra todos saírem correndo e gritando, rindo pra cacete mas fingindo que tavam morrendo de medo de mim.
E se escondem. Eu paro de correr e volto andando ao camarim, rindo mais que todos eles, achando graça de crianças mexicanas, argentinas e venezuelanas de um jeito torto ficarem sabendo de como meu namorado me apelidou numa certa manhã depois de uma noite de prazeres absolutos.
Vou me aquecer para a minha primeira entrada no show, já logo na abertura. O Leandrito vem atrás de mim e quer jogar “O trem maluco”, aquele que quando sai de Pernambuco vai fazendo chique-chique até chegar no Ceará. A gente ensina vááárias brincadeiras que hoje em dia nem as crianças do Brasil brincam mais, com toda essa infância virtual dos novos tempos.
Digo que tenho que me alongar, ele se entristece e me enche de porquês, afinal, ele também está prestes a entrar e não precisa fazer nada disso. Já meio sem paciência com o moleque pendurado nas minhas costas no meio do meu grand-plié eu explodo:
-Ggggrrrrrrrrrrrrr!!!
Porque soy una Godzilla vieja!!! Si no me caliento me lastimo en la pista despuésssssssss!!!! Tu no necesitas porque eres un Godzilla joven, espera tener mi edad!
Me sinto um monstro de verdade. Tadinho. Por uns 10 segundos ficamos num completo silêncio. Até ele cair na gargalhada. Alívio, melhor assim.
Todos os dias ele vinha me chamar :
-Godzillaaaaaaa, apúrateeeeeee!!!
Todos os dias eu ia me aquecer, ele pedia pra jogar e eu dizia:
-Agora não, tenho que me alongar. Ele perguntava porquê só pra escutar eu dizer uma vez mais que era por eu ser uma Godzilla velha. E rirmos juntos.
Até um dia num intervalo do show.
Ele chega gritando:
-Godzilla vieja con el cuerpo viejooooooo!! Apúrateeeee!!!
Deslealmente, como se ele tivesse a minha idade, respondo:
-Vieja es tu mamá!!!
Mesmo vendo aquela cara de bunda que ele fez sem entender porra nenhuma da minha apelação, não me arrependo.
Homens! É preciso ensiná-los desde cedo que existem coisas que só nós temos o direito de brincar, coisas que eles NUNCA devem falar a uma mulher.
Antes que eles cresçam e te coloquem apelidos.

09/09/09

Su Majestad el Circo!


Onde tudo é magia e ilusão, a gente engole o choro. E sorri. Por respeito ao público, ao lúdico, à necessidade do ser humano de esquecer o caos. Pão e circo. Bom, aqui no caso, pipoca, algodão-doce e nachos com queijo cheddar, afinal estamos no México.
Vejo um circo lotado de pessoas de todas as idades e é como se a idade do corpo já não fizesse diferença. Somos todos crianças.
Como se fôssemos assim sempre. Como se não tivéssemos que enfrentar a vida real por trás daquelas cortinas quando o show acaba e que quando se abrem nos faz esquecer qualquer dor, saudade, preocupação. Como se as cortinas fossem um portal para nós, artistas. Passando delas para fora da lona, a realidade gris de todo dia, mas a cada show, passando delas para dentro do picadeiro, é como entrar num mundo de “Genius”, “Caverna do Dragão” e “patins de bota de couro branco com rodas vermelhas”, com aquele freio de borracha redondo lá na frente.
Nos permite esquecer que as elefantas apanham, e muito. Que o palhaço é um escroto, a bailarina tem mania de perseguição, o mestre de cerimônias é um galinha e que a coreógrafa é uma dessas " mal comidas" da vida que nos enche a porra do saco. Enfim, pessoas comuns como em qualquer vizinhança ou local de trabalho.
Lembrar do quão importante eu me senti na primeira vez em que entrei numa lona de circo e a bailarina me mandou um beijo no meio do seu baile, do quanto é gratificante estar do lado de cá hoje e poder fazer o dia de tantas “meninas-bailarinas-princesas” mais feliz.
De encher meu rosto de maquiagem extravagante e multicolorida, poder usar cílios-postiços e peruca, além de diversas formas de chapéus. Figurinos que são fantasias de infância.
Estar com uma cólica do caráleouw e não saber dizer não à filha do malabarista que entra desesperada no camarim e grita:
-Amigaaaaaaaaaa!! Me haces un corazón en mi carita?
E você desenha o coração. E passa sombra nos olhos e brilho na boca e não consegue fazer mais nada por falta de espaço naquele rostinho lindo, porque aquilo te encheu os olhos, a alma e a vida, te fez sorrir num dia daqueles e enxergar como nada é tão complicado assim e você pensa se algum dia vai estar fazendo isso pra sua filha.
Vê famílias feitas de pais, mães e filhos e diz pra sua melhor amiga (que aliás você conheceu ali mesmo, no Circo, e que agora tá lá no Brasil), a mesma coisa que você dizia há três anos atrás, quando embaixo da arquibancada a função ia correndo e você prestava atenção não no artista em cena, mas na platéia e lhe dizia que tava cansada dessa vida de aventureira. Que você só queria ser mais um deles.
E que queria seu marido, sua filha. Levá-la ao ballet. Domingo no circo, mas do lado de lá. Ter um endereço fixo para onde chegar suas cartas, mesmo que sejam cobranças. Que talvez a mulher que casou e teve filho cedo demais tivesse ali sentada te olhando naquele show imaginando ser você no mesmo momento em que você estava pensando ser ela.
A bailarina ama o circo e todos os sonhos que vem dele.
Esses sonhos por muito tempo foram os seus.
E continuarão, agora reinventados.
A mi manera.


01/08/09

Colheita do Sul


Posso não vê-la por um ano, um mês, uma semana ou um dia. A amizade é a mesma. Taí, esses anos todos de trabalho eu vivi muito bem. Construí alguma coisa? Boas amizades, essa principalmente.
Não tem tempo ruim, com dinheiro ou sem dinheiro a gente se diverte. Aliás, é no perrengue que a gente reconhece quem realmente está do seu lado. Quando não sou eu quem a levanta, é ela quem me puxa. Pra cima. Sempre.
Um exemplo foi meu aniversário desse ano.
Eu avisei com um mês de antecedência, ela se preparou. Trabalho, filho, mãe, distância... Conseguiu driblar tudo pra me ver.
Chega em casa com o presente ideal: vodka. Enquanto deixamos a cana esfriando na geladeira, vamos ao super comprar um suquinho pra negócio. Como éramos nós duas no mercado, nada mais justo que topar com uma noite de degustação de vinhos e queijos. E começa: vinho tinto, seco, suave, branco, espumante.
-Hum... Rê, esse tá muito bom, vamos levar esse?
-Ai, não tô muito segura, Ju. Vamos provar esse aqui.
E de provadin em provadin a “marvada” subiu nas cacholas, então é hora de degustar os queijos. Parecíamos duas mendigas que entram no mercado só pra comer. As atendentes nos olhavam horrorizadas, os homens nos olhavam com cara de desejo. Duas lôras lokas dos seus cús em plena Voluntários da Pátria fim de tarde. Tudo o que a gente fazia era rir. Muito, e muito alto. Vexame mais gostoso.
Já tínhamos mamado não-sei-quantos copinhos, quando decidimos escolher por fim o melhor vinho (e dessa vez foi coincidência ele ser também o mais barato). Seria chatão fazer o terceiro round naqueles corredores de novo... Até porque a gente já tava nocauteada na sexta mistura de vinho. Escolhemos um queijola, esse foi o erro. O barato tem um gosto horrível, por 10 conto que “nóis quis economizá, nóis si fudeu.”
Uhauahuahuahauha.
Fomos pra casa, matamos o vinhão. Pegamos a câmera e começamos a fazer vídeo pra geral dos nossos hearts, aqueles vídeos que a gente sempre grava quando tá muito kbçuda e nunca envia, o que faz eles não saberem na veracidade total do nosso ser o quanto são amados e queridos por nós.
Passa o ar. Nos arrumamos, vamos para o Casarão do Zouk e de lá para The Week, a tudo-de-sucesso balada gay.
Tô com o namorado, último dia antes de voltar pro lúdico-de-todo-dia-que-começa-a-dar-no-saco no circo do México. Alguns poucos amigos comemorando comigo, o suficiente. O coração dói.
Olho a lôra. Três anos se passaram, somos as mesmas. Obrigada Deus, apesar da maturidade adquirida (e que fique bem claro: só pra algumas coisas), nossa essência não mudou!
O álcool no sangue. O sangue na música. A música no seu corpo. Seu corpo na dança. A dança na alma. A alma no abraço de urso de até mais. E muito, muito carinho meu.

29/07/09

Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega!


As técnicas mais usadas no ballet clássico são: método russo (Ballet Bolshoi, Kirov, escola de Vaganova), método cubano (Balé Nacional de Cuba) e o método inglês (Royal Academy of Dance). Muitas escolas utilizam o estilo livre, que mistura dois ou mais métodos de artistas que aprimoraram a técnica, criaram e recriaram conceitos.
...Aqui o circo usa o método TIA TETÉIA.
Tia Tetéia é uma ex-bailarina que no auge de sua curta carreira participou dos “melhores musicais” (?) no México, e que se consagrou no circo dos seus pais, tendo todo o poder e autonomia necessária para criar coreografias que em sua juventude revolucionaram uma época. E principalmente o circo.
Isso fez com que Tetéia fosse o orgulho de seus pais, com todos aqueles movimentos bregas e repetitivos de jazz dos anos 70. Ah, temos o famoso passinho de John Travolta, aquele apontando o dedinho pro céu. Night fever? Ela adoooooora, mesmo não indo mais às boates por falta de companhia.
Mas VAGANOVA virou VACALOKA, e saia correndo atrás da música, esquece o ouvido. A resposta dela?
-Eu não monto coreografia na música. Não preciso de musica. Toda música é contada 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Simples assim. Aí é só encaixar, acelerando ou diminuindo a velocidade do movimento. Eu não tenho tempo pra montar 4 ou 5 coreografias em uma semana. Como o escritório do circo demora a me entregar as músicas, então já adianto meu trabalho.
Ai meu ouvido! Quê? Vai, Juliana. Corre. Chassé, chassé, deboulé, trocadilho, retiré. Repete tudo pra esquerda agora. Ah, e depois se tiver faltando música, resolvido: repitam tudo. E pose final.
Eu me vendi.
Diz a lenda que um dia Tetéia já foi uma bailarina como todas nós, que dançava por amor. Amor à dança, à linguagem do corpo, à liberdade que ela sentia naquele momento de transe, aqueles 3 ou 4 minutos de coreografia em que o mundo era habitado somente por ela, em que a música explodia no peito e corava seu rosto de prazer e satisfação. Amor aos aplausos e à expressão do público (às vezes caíam lágrimas ao ver semblantes tão satisfeitos, sinal de que ela tinha conseguido tocar seus corações)... Amor à sua própria superação, afinal se você dança com o seu sentimento puro e verdadeiro, seu corpo vai te seguir, e aí não existe técnica, é seu coração se expressando do jeito que quiser. Sentimento que sai ao ouvir a primeira nota da música. [Dizem que antes ela se recusava a coreografar sem música.]
Foi no auge da sua carreira, completamente envolvida com seu trabalho, que ela conheceu o amor. E se rendeu a ele. Casou, teve 2 filhos. Pensou que fosse transferir o seu amor ao trabalho pelo amor ao marido, aos filhos. Pela sua constante vontade de um dia poder ter uma vida comum como todos os outros. Desejava esse outro lado, sabia que um dia isso teria de acontecer. Deixar as luzes de arco-íris que vinham dos refletores.
Pensando nisso, foi fazer uma faculdade. O marido foi se mostrando um retardado mental, um completo idiota, babaca mesmo. E o peso de casa, contas, filhos acabou sobrando pra ela. Caiu em depressão, o emocional afetou o organismo, teve problema na tireóide. O marido pediu a separação. Engordou horrores, abraçou a depressão, pensou nos filhos e quis sair dessa. Comprou livro de auto-ajuda, pediu emprego no circo de novo porque queria estar perto da família, pediu ajuda a Deus, desacreditou em Deus. Viajou pra Aspen pra pôr a cabeça em ordem, se encontrou na neve e virou a mulher-gelo.
Pronto, agora tão explicados os porquês de a gente ter conhecido uma pesoa tão fria e amargurada com a vida. Um amor errôneo tinha levado seus sonhos de princesa.
Mas quando a gente chegou aqui há um ano atrás, não sabia de nada disso.
Tudo o que a gente via era uma mulher mimada pelos pais, sem talento pra coreografar um oito, gorda por uma tireóide, apoiada em seus caprichos pelos donos do circo e incomodada com nossos corpos, nossa alegria e nosso jeito de dançar. E de levar a vida. Como saberíamos que o incômodo era porque a gente lhe fazia lembrar de tudo o que ela não era mais?
Essa carreira é muito curta, quando o corpo não pode responder mais é preciso buscar outros pra desenharem sua idéia. Aprender a trabalhar em equipe é melhor pra todo mundo. Mas ela queria descontar a raiva dela em alguém, e como ela tentou sacanear a gente! Nunca entregamos os pontos, era isso o que ela queria, e nada melhor pra derrubar uma grosseria do que boa-educação.
E as idas ao camarim pra tentar pegar alguma de nós desprevenida com uma meia rasgada, uma maquiagem errada, uma miçanga do figurino caindo só pra ter o que falar, acabaram sendo substituídas por risos, confissões, discussões de moda e beleza. Eu disse que ela poderia fazer uma franja no rosto igual a minha, toda mulher rejuvenesce com uma franja no rosto, no outro dia lá estava ela de franja. Mandou malzaço querendo pintar o cabelo sozinha, cagou bonito e o cabelo ficou mó páia (ou mó faia, como queiram).
Na semana do seu aniversário cismou que queria ir a um show de Striptease. Caráleow, me dei conta que nunca fui em um. Sei lá, acho tão brega quanto os passinhos das coreografias que ela monta. Homem no palco dançando é uma coisa. Homem no queijo de cueca rebolando? Afffff! Bom, gosto não se discute, cada um com seu cada um [rsrs]. Se existem atalhos para a felicidade e dançar é um deles, deixa o “bombadola” rebolar!
Não fui a esse show, nem aos restaurantes, boates, cinemas e cafés, convites impostos praticamente ao ballet. Declarei guerra com minha rejeição. Não foi de sacanagem, só não tenho aptidão pra ser pau mandado. Minha vontade sempre prevaleceu e se não tô a fim de sair, independente de qualquer razão, não saio é messsssssmo e pode soltar fogo, dragão. Cara feia não me assusta. Nem ataques e ameaças.
Amizade não se impõe. E eu não gosto de você tanto quanto não gosto das suas coreografias. Ah, também não gosto do ouvido que você tem só pra xeretar a vida alheia. Use-o melhor! Aprendendo a diferença entre ritmo e melodia, por exemplo.
Voltamos ao zero, a aparente mudança nunca realmente aconteceu. E que bruxa vira princesa no final?! Hein hein?!
Qual o nome verdadeiro da Tetéia?
Cuca? Não.
Celeste.
A origem é do latim e quer dizer “que vem dos céus”.
Ô.

05/06/09

Te amo?!


Le Boy, quinta à noite. Copacabana.
O bom de sair com nossos amigos gays é que a balada se torna um show à parte. E que podemos abusar no figurino. Escolho uma produção escândalo, aquela que você vive com desejo de usar e nunca veste por parecer inadequada, como fantasia de carnaval em festa black tie. Em balada gay não existe preconceito, eu posso dançar naquele espaço enorme como danço quando ligo o som num dos inúmeros quartos de hotel por onde passo, ou quando ponho o DVD da Beyoncé e o mesmo santo epilético que baixa nela acaba baixando freneticamente em mim. Nenhum homem vai pensar que sou uma “pau loka” querendo chamar a atenção, nenhuma mulher vai pensar que sou uma “vadia” querendo chamar a atenção. É um dançar como se ninguém estivesse te olhando. No mundo gay não existe distinção de cor, sexo, religião, comportamento. O espírito é livre, como o escrito embaixo da minha tatuagem de borboleta.
A música entra na alma, todos bailarinos e alongados, a sessão de fotos é garantida em poses, aberturas e ponchées.
Público perplexo com a performance. Todos admirados com a nossa maneira de expressar a loucura da arte, ou da vodka. E no meio daquela multidão apenas uma pessoa me olhando como um homem olha pra uma mulher.
21 anos, irmão mais novo do Guiggo, naquela loucura ele é o par perfeito nessa brincadeira de ser o que sou.
Peço autorização pra mãe dele, a Rose. 49 anos, linda, magra e loira. Com um namorado de 20 completamente alucinado nela. Arrasou. Os homens quando viram velhos se tornam chatos ou quando viram chatos se tornam velhos? Lo que sea. Os novinhos tão dando baile de maturidade em muito marmanjo, sem contar no fôlego e disposição adolescente.
Explico que estou apaixonada (culpa do ruby red drink), ela me dá sinal verde.
A gente se beija, a torcida fica eufórica. Como se estourassem fogos de artifício em plena virada de ano. Ali mesmo, em Copa.
Quando geral resolve ir embora, a Rose me questiona o tempo todo, mais em tom de afirmação que de interrogação:
-Você vai pra casa.
Assim, bem imperativa.
E já faz uma semana que, aceitando a ordem da sogra e o pedido do bebê, todos os dias vou pra casa deles.
Carinho, cafuné, mãos dadas, beijos, abraço de conchinha, murmuros e elogios ao pé do ouvido. Alguém te desejando bom dia de manhã. Quanto tempo não sei o que é isso!!!
A Rose diz que isso é obrigação de homem estando com uma mulher como eu, Gláucio concorda. Mas as coisas não são assim, sempre fui um imã pra canalha e há anos não sei o que é ser tratada tão bem. Deitada na cama dela discursando a vida, me sinto ao lado da minha mãe. É tão bom sentir essa atenção e querer bem quando já não existem laços de família que me prendam... Minha mãe se foi e com ela toda a minha recordação de comer junto, brigar junto, assistir TV junto. E eu, tão livre na vida, me sinto completamente dependente hoje desse afeto, aconchego de lar. Estar lá é alimentar minha alma, sem contar a diversão.
Vou para a cama com o Bruno, ele entra num assunto delicado, diz que é muito bom fazer amor comigo.
Vamos por partes. Desde os meus 16 anos, quando perdi a virgindade, me questiono sobre “fazer amor”. Descobri o sexo com o meu primeiro namorado e não entendia a expressão fazer amor. Pra mim o sexo sempre foi o lado bicho do homem, como qualquer ato de procriação da espécie animal. Como cavalos, zebras e tigres. Todos fodem. A única diferença no meu ponto de vista era que você poderia foder amando ou não. Você pode ter sexo com o seu amor (o melhor sexo!) e isso não quer dizer necessariamente que esteja fazendo amor com ele. Sexo é sexo. Amor é amor. Não há como igualar um instinto a um sentimento, como a música da Rita Lee: “amor é divino, sexo é animal”.
Voltando à conversa do Bruno:
-Porque na primeira vez que a gente transou foi sexo. Agora a gente faz amor. Não sei você, mas eu não ia ficar trazendo uma pessoa pra casa todo dia há uma semana só por sexo. Eu gosto de estar com você, minha família gosta da sua presença aqui. A gente transa, mas existe uma preocupação minha de que você sinta prazer, eu não estou pensando só em mim. Eu quero que você se sinta bem, é diferente. Existe carinho.
E em véspera de completar 29 anos, 13 anos depois de formular essa minha teoria lunática ou correta demais, depois de muito tempo tentando lidar com a solidão, entre 4 pernas entrelaçadas num ballet esquisito na cama, aprendo com uma pessoa 8 anos mais nova o significado e a leveza do “fazer amor”. Simples assim. Porque compliquei tanto?
Vou ao shopping e a Patty me liga várias vezes. Tinha batido o carro e estava chorando, nervosa. Pra acalmá-la ou descontraí-la eu começo a falar a linguagem dos bebês, aquela de gutchi-gutchi que eu falo com os meus amigos pra demonstrar afeto. E antes de desligar cada chamada digo que estou ali pra qualquer coisa e que eu a amo. Umas 10 vezes.
O Bruno liga na seqüência, já tava no automático, antes de desligar eu digo “TE AMO”.
Pára tudoooo!!!! A loukaaaa! Como assim, Juliana? Você está há uma semana com ele, como você fala isso, o que ele vai pensar?
Escuto uma risada antes da ligação ser cortada. Meu pai do Céu! Fico uns cinco minutos congelada, olhando pro telefone na minha mão, incrédula com a cagada, roxa de vergonha.
Chego em casa, conto tudo pra Lú. Como vou consertar isso? Nessas horas quanto mais a gente tenta se explicar, mais enrolada a gente fica. A Lú ri muito, o telefone toca, é ele. Ela tira onda:
-Cuidado pra não falar de novo!
Vou pra casa dele à noite. Explico o que aconteceu, sempre curti essa de falar a verdade. Adoto a linha do “MUITO FRANCA”. Acho que ele me entende.
Passo mal à noite, esse tempo doido no Rio de frio e calor. Carinho é melhor que qualquer remédio. Carinhos excessivos com a minha pessoa então fazem muito mais efeito que qualquer xarope, antiinflamatório ou vitamina C.
Acordo no meio da noite e fico observando ele dormir. Jovem, lindo, romântico, cavalheiro e nobre em sentimentos que é. Penso nos poucos dias que me restam de férias aqui, da saudade que vou sentir e de como eu sou mais feliz desde que ele e sua família entraram em minha vida.
Dou um beijo em sua testa e digo bem baixinho:
-“Se você pode em uma semana fazer amor comigo, eu posso em uma semana amar você.”

16/05/09

"Fantabulástica" Ipanema


Ipanema, posto 9. Fonte de inspiração da canção brasileira mais conhecida no mundo, de Vinícius e Tom.
“A beleza que não é só minha...” Não mesmo.
Fomos eu, Bela e Patty tomar um sol. Depois de dizer tantas vezes de brincadeira lá no México que estávamos cansadas da cara uma da outra e não íamos nos ver nessas férias no Rio. O que esquecemos é que só nós estamos de férias, nossos amigos não podem pegar uma praia na quinta às 11 da manhã porque estão trabalhando. E só nos resta a (sempre boa) opção de pagarmos a língua e continuarmos fazendo os programas juntas.
Nunca imaginei que ir à praia pudesse se tornar um evento repleto de tanto conhecimento não adquirido nas escolas. Artistas da areia, buscando maneiras inovadoras de conquistar um cliente e ganhar o pão de cada dia.
Histórias como a do ex-garçom de um hotel 5 estrelas em Copa que deixou o trabalho porque não era feliz, e saiu com a mochila nas costas vender sua arte. E que estava emocionado pela possibilidade de se reencontrar com uma pessoa especial que ele não via há 4 anos, outra mochileira da estrada dos sonhos. Ali, na mesma areia onde Fernandão, um engenheiro de informática desempregado, nos contava que foi bailarino clássico por seis anos. Seu maior orgulho era ter incentivado os filhos ao esporte, propiciando bons estudos e diversas viagens a lugares que ele mesmo nunca teve a oportunidade de conhecer. Do brilho nos olhos ao falar de sua filha Gabriella Silva, recordista mundial de nado borboleta.
-Você não sabe o que é ver sua filha dando entrevista na TV num dia dos Pais. Dizendo que agradecia a cada dia que eu não a deixava desistir da aula nem em tempo feio, e ficava ali, encharcado de chuva na arquibancada ao lado da piscina, até o treino acabar. Do filme da minha vida que passou enquanto ouvia aquela hoje mulher feita falar de mim quando só o que via era aquela criança que eu soube cuidar.
-Se o dinheiro fosse bom, eu já tinha trocado os escritórios pelas areias há muito tempo.
-Então você não trabalha aqui? –pergunto.
-Só de quinta a domingo, pra dar uma força. Tenho uns trabalhos de consultoria durante a semana, e vem daí a minha grana. Quem vive nessas areias não ganha dinheiro não. E geralmente são pessoas muito humildes e as mais nobres. Eu tô aqui pra ajudar a levantar a barraca do Russo, grande cara... Como é que tu pode expandir teu negócio se não sabe falar cadeira nem guarda-sol em inglês em plena Ipanema? O movimento melhorou consideravelmente. As pessoas que conhecemos aqui, poder pegar um pouco delas e deixar um pouco de nós...
-Como as duas australianas que não tinham dinheiro pra ficar mais uma semana e eu as convidei pra ficarem em casa, sem pagar estadia ou alimentação. Ou ter ficado hospedado em Madrid graças a um cara amigo dessa praia, que ficou super ofendido no dia em que cheguei à sua casa com compras de supermercado. Se eu quiser, tenho onde ficar em quase todos os lugares do mundo graças à Ipanema.
Ficamos o dia inteiro ouvindo grandes histórias e conhecendo pessoas que, na dureza do sol quente que já nem queima mais os pés acostumados, enfrentam a batalha diária.
O cara da Ilha Grande que aproveitou o dia de compras de mais material para criar suas mandalas e vender algumas ali. E do menino de 5 anos que se aproximou pra tentar vender chiclete e nos pediu uma daquelas pra enfeitar a sua casa porque era muito bonita. E ganhou, porque 10 reais não pagam a arte do maluco emaconhado nem o sorriso daquela criança sem direito à infância. No velhinho que vendeu 65 reais só de brincos (Pô Isabela, sete?), e principalmente, nos duendes loucos.
Tadeu e Herlon se acercaram a nós saltitantes. Um é gordinho, meio anão e branquelo. O outro magro, alto e preto de sol.
-Meninaxxxxxxx (num carioquês nato), vocêxxx parecem gente boa, acabamoxxx de levarrrrrr mó fora de outraxx meninaxxxx...
-Pô, mó seca elas, né Tadeu?
-Então, antes de qualquer coisa, vocês acreditam em duendes? – e já arrancam um fio de metal do bolso e o alicate e começam a criar sei lá o quê enquanto se explicam - Porque nós somos duendes.
-Viemos do mundo “Fantabulástico” (como é que é?), onde vivem fadinhas e duendes. Mas como somos uns duendes loucos, o ursinho carinhoso nos afastou das fadinhas porque sabe como é, somos tarados nas fadinhas... E sempre que a gente saía com elas, quebrava as asas das coitadinhas.
-E aí ele nos deu um suquinho tipo “gummy” (referência ao suco que dava energia aos ursinhos de um desenho infantil) e nos expulsou do paraíso. Viemos na nossa nave espacial, mas doidões que somos não lembramos onde a deixamos e agora estamos presos aqui na Terra, e percorrendo o mundo atrás da nossa nave pra tentar voltar pra casa. Hoje estamos em Ipanema porque tá calor e a gente não gosta de frio. Daqui vamos subir pra América Central...
E nos entregam uma pata de urso a cada uma, um piercing de encaixar na orelha.
-Essa patinha é do ursinho carinhoso que expulsou a gente do paraíso, nossa missão é entregá-las a cada fadinha da Terra pra que suas asas nunca quebrem.
Herlon tenta outra: -Ele não quer dizer a verdade. Isso é um chip, para encontrarmos vocês a qualquer hora que quisermos... E os dois se olham e riem um riso alucinado e psicodélico.
Patty pergunta: - Mas não cai da orelha?
Tadeu agora responde:- Das boas meninaxxx não, só das más. Não nos decepcionem e percam esse chip rapidinho (outro psico-riso de chá de cogumelo).
Como disse Fabião, o ex-garçom: -“Maluco com maluco se entende”.
E começam a mostrar suas bijuterias. Fico encantada com uma pulseira, 50 reais. Mas já estávamos zeradas de grana, de tanto querer ajudar nossos companheiros da arte. E 50 reais é um preço surreal, “fantabulástico” demais pra uma brasileira. Se fosse gringa caía nessa.
-Pô Juju, essa pedra da pulseira eu peguei lá na Argentina, num lugar que hoje é praticamente impossível conseguir. Tem história essa pedra... Já dei meu preço, agora diz o teu.
-Tadeu, já tá anoitecendo, se a gente tivesse encontrado vocês antes eu te dava um preço. Passamos o dia ajudando a todos os malucos que pararam a gente, cada um com sua história. A pulseira é muito linda, mas não tenho coragem de te dar o que tenho na carteira... Somos artistas também, bailarinas de circo, e por reconhecer teu trabalho prefiro ficar sem a pulseira. Alguém vai te pagar mais do que eu tenho aqui comigo.
-Aí, vocês também são artistas? De qual circo? No México? Ah, estão de férias? Passa o endereço que a gente encontra vocês lá. Que louco, aí. Agora que você leva a pulseira mesmo, não pelo dinheiro. Você merece a história dessa pulseira.
E ele aceita meus 20 reais. Desejamos boa sorte no caminho, passamos o endereço do circo, tiramos fotos junto com eles e com quase todos os outros. E prometemos passar as fotos depois por e-mail a cada um (é, pegamos os contatos dos doidos). Tenho certeza que os duendes vão dar as caras lá no circo qualquer dia desses.
Mais algumas cervejas depois e com todas as luzes dos prédios da Vieira Souto acesas pela noite que havia chegado, meio confusas se fomos generosas ou otárias demais, se essa galera tava admirada ou morrendo de rir da gente, chegamos à conclusão de que a causa foi nobre. E uns 60, 70 reais gastos por cada uma num só dia naquelas areias com coisas que nem queríamos comprar foi preço de banana pela experiência vivida. Como gringa pagando caro e feliz, porque pra ela não deixou de ser um ótimo negócio.
Sendo artistas fica fácil entender e sempre que possível ajudar, afinal também temos a nossa história:
“-Era uma vez um sonho... De dançar a VIDA.”

11/05/09

Influenza


Era uma terça-feira. Iríamos debutar na sexta numa temporada de 10 dias de shows vendidos na Cidade do México, e dali iríamos a Vera Cruz.
Mas na quinta o circo nos avisa que os shows haviam sido cancelados, assim como as aulas das crianças em todas as escolas. E nos pedem para comprar máscaras e lavar todo o tempo nossas mãos, e não cumprimentar ninguém com beijos. De preferência, que não saíssemos na rua, e principalmente que evitássemos lugares fechados.
Tudo por culpa de uma nova doença, chamada de “influenza porcina”. Um novo tipo de gripe que surgiu no México. As autoridades esconderam a notícia por dois meses e só agora ela explodia em todos os meios de comunicação. Dali e de todo o mundo.
Cogitava-se tudo, de coisas possíveis a surreais: “O governo segurou essa notícia até agora pra evitar um caos no país e pânico na população, ou na tentativa de evitar uma crise econômica, mas a epidemia pode virar uma pandemia, e eles não sabem como resolvê-la. Seis meses no mínimo pra desenvolverem a cura. Isso é uma jogada do FMI de acordo com alguns países, loucura do poder. Pode ser ataque terrorista, é o começo do fim, apocalipse que se inicia. Existe uma vacina, não existe. Quem pegar essa gripe morre, ah, não morre mais se for detectado a tempo. Ataca só as crianças e os mais velhos. Desculpem, ataca os jovens também. Depende da imunidade do infectado, tomem vitaminas! São oitenta mortos. São mais de trezentos. Agora são só oito, e alguns já estavam doentes de outra coisa. Usem máscaras, o exército está distribuindo no centro. E os infectados? Como estão sendo tratados? Eles fazem tratamento com duas substâncias, que podem deixar seqüelas. E ninguém recebe visitas. Se os Estados Unidos decretarem que os aeroportos estão fechados pro México, o mundo o coloca em quarentena, e aí ninguém sai daqui.”
À parte de estar vivenciando esse horror, e meus olhos registrando cenas inesquecíveis em minha memória, tinha que acalmar família e amigos no Brasil, mesmo sem a real noção da ameaça. Estava sem resposta tanto quanto eles. Ou talvez até mais. Tudo o que eu não queria era tocar nesse assunto... Sair, abraçar uma árvore, comprar um sapato novo, ver um filme comendo pipoca no cinema. Tomar umas brejas num Pub da Condesa, estar no camarim me maquiando e encher de carinhos excessivos a uma senhora maravilhosa que é responsável por nossos figurinos e que eu chamo de mãe. Estar em cena.
Mas só o que acontecia era falar disso, e trancados. Era proibido sair, e mesmo se o fizesse, todos os estabelecimentos estavam fechados, obrigatoriamente. Com exceção dos mercados, e ir lá era deprimente. Uma multidão mascarada corria entre corredores e prateleiras, afinal estávamos no estágio três e disseram que no quatro fechariam os mercados também. Alguns estocavam o máximo de comida, outros compravam só o necessário porque estar ali era um grande risco de se contaminar.
Presenciei tudo isso de terça a domingo, até o escritório do circo nos chamar. Disseram que a crise econômica já havia se instalado, e enquanto o circo não pudesse reabrir, não teriam como ficar nos mantendo sem trabalhar, e que isso não tinha data pra acabar. Se preocupavam também que a doença agravasse e ficássemos em quarentena num país que não era o nosso, longe de casa como estávamos já há tanto tempo, um ano praticamente.
Que o melhor para nós naquele momento era voltar, com passagem de regresso e visto nas mãos, até esse risco diminuir. E não quiseram se despedir de maneira alguma. Disseram que era um “hasta luego” e que a passagem e o visto que levávamos comprovavam isso.
Corremos para arrumar as malas, trocar dinheiro numa casa de câmbio e nos despedirmos dos nossos amigos artistas que se tornaram uma grande família. Argentinos, venezuelanos, colombianos, mexicanos. Pessoas que amenizaram nossa dor de estar longe como eles. Que somaram alegrias e multiplicaram felicidade, nesse nosso palco chamado VIDA.
Pegamos o avião domingo à noite pro Brasil.
Fico aquelas longas horas pensando em cada criança dali que cuidei como filho que ainda não tenho e desejo, em cada amizade que fiz... Na história de luta de cada um, dos jovens aos mais velhos. Do boa-pinta do Globo da Morte que hoje é um senhor assistente de pista e motorista. Da ex-trapezista que é costureira. Do diretor de pista que está com um tumor e ainda não fez o exame para saber se é benigno ou maligno, cheio de medo porque perdeu a mulher há pouco tempo de câncer. Da mulher da Lira que é artista, costureira, mulher, mãe, dona-de-casa e vendedora de brinquedos no intervalo do show. No menino-maluquinho, seu filho, que trabalha na pista como acrobata e que passa horas do seu tempo de criança ensaiando como adulto, e que me abraçou como menino que é, com um sorriso grande me perguntando quando ele e seu irmão poderiam sair do trailler pra brincar e porque sua mãe não parava de chorar naqueles dias. Do venezuelano “chevere” que chegou só no começo desse ano, o cara novinho que se parece muito com um dos meus irmãos, e me fazia sentir como se ele estivesse ali comigo. Aquele que saiu do cinema e foi comer com a gente na praça de alimentação lotada e começou a rezar agradecendo a Deus pelo alimento, sem a menor vergonha e com a maior pureza no gesto.
Do colombiano equilibrista que quer tanto quanto eu construir uma família, e viver para ela, mas que a profissão não cria muitas chances para isso.
Da mulher de um dos donos do circo, ex-hippie que nos distribuía paz e amor. Da mulher de um ex-palhaço e mãe de uma ex-bailarina. Da saudade que vou sentir desses três. E das elefantas também! (sempre achei que a Rose só ficava sentada todo aquele tempo no banco porque sabia que ganharia uma banana minha depois).
Do palhaço que mesmo no meio da tragédia não perde a piada, dizendo que vai fazer uma máscara gigante para cobrir o seu trailler, afinal, todo cuidado é pouco.
Penso em cada pessoa que conheci fora do circo, numa boate, num café, num ponto turístico, numa loja qualquer, em cada hotel que passamos... Consigo lembrar de cenas e até diálogos.
Foi o melhor contrato fora do meu país que já fiz. Mais que artistas, nos tratavam como parte deles. E mais que dinheiro, eu juntei foi experiência de vida. As lembranças e lições que vem junto com esse trabalho. Difícil ir embora assim, como fugitiva do caos.
Independente de eu voltar ou não a esse contrato, quero muito que eles voltem o mais rápido possível. À coxia, às luzes dos refletores, à pista, aos aplausos, ao lúdico e aos sorrisos.
À esperança.
Impossível dizer adeus, não teria coragem de limitar a possibilidade e a força do reencontro dessa maneira.
“Hasta luego, amigos. Mucha luz y fuerza siempre!
Que Díos bendiga nuestra lucha y arte aún más, con toda su “INFLUENZA" divina.
Amen.”

07/04/09

Meu amor às lingeries.


Depois de muito tempo passado o aniversário da Belinha, finalmente pude ir a um bom shopping procurar um presente. Eu queria comprar uma sandália fechação, dessas pra usar no Cine Ideal, B.i.t.c.h ou The Week, baladas que costumamos ir com nossos amigos bailarinos gays (ou quase isso) no Rio, aqueles deuses da moda que sempre nos fazem sentir mais lindas, porque reparam detalhes que nos esforçamos tanto para serem notados pelos heteros e que só os olhos deles podem ver e entender. Aqueles gostosos que você chora em pensar que é uma quantia a menos em nosso mercado escasso dividido em casados, gays, solteiros convictos e perturbados das idéias (geralmente feios ou horrorosos), Sarados que você se contenta em dar uns pegas de vez em quando pra relembrar como é. Seja por amizade ou caridade (deles, claro), só rola nas loucuras de Cine. Ideal!
Mas aqui começou a coleção primavera-verão e sandália-traveca sumiu das vitrines. Parece que só agora descobriram a gladiador. É um festival de rasteirinhas. E de anabelas. Afffff!!! Tudo o que eu não quero comprar.
Rodo o shopping todo e paro numa grande rede de marcas famosas. Calvin Klein, Pepe Jeans, Guess... Nada. Tudo tapado, escondido demais. Gringo demais. Nada a ver com nosso corpo, nossa sensualidade escandalosamente brasileira. Então no corredor ao lado direito vejo a sessão de lingerie.
Sempre tive tara por lingerie. Posso dizer que até mesmo certo tesão. Calcinhas, rendas, laços, corpetes, baby-dolls, camisolas, tudo.
Não existe nada mais feminino que uma mulher bem vestida para dormir, mesmo que acabe dormindo sem nada justamente por essa razão.
Pra mim é a mesma loucura de 99,9% das mulheres por sapatos. Mas quem nota teus sapatos são seus amigos gays e as outras mulheres. Homem não olha pra pé. Olha pra bunda.
E foi assim que me deparei com uma camisola vinho de musseline, frente-única, detalhe em renda, decote fundo nas costas. Aquele tipo de camisola que mostra tudo sem escancarar. Perfeita. A Bela tá namorando, fechou.
E aí só pra matar a minha curiosidade, vou experimentar.
Me olho no espelho do provador e não acredito: Exuberante, linda. Não a camisola, eu. Ou seria eu na camisola? Whatever. Falo com meu reflexo no espelho: Como pode? Independente, bonita, agradável, inteligente, divertida... E mesmo assim você não tem a quem mostrar uma camisola dessas.
Mas eu quero e vou comprar. Pra minha amiga e pra mim.
Depois do show chego ao hotel, tiro a maquiagem, tomo um banho muito do gostoso e relaxante, uso o meu creme Pure Seduction de Victoria’s Secret para ocasiões especiais (não é bem pra essa, mas não deixa de ser especial). Deixo o creme aderir à pele enquanto penteio o cabelo lentamente... Passo um tiquinho do meu perfume, Be Delicious de DKNY, visto a camisola nova e olho novamente pro espelho.
Deito na cama, apago a luz, abraço o travesseiro e me sinto deliciosa.
Pura sedução, solidão e paixão.
Vinho.

Nas Roça nóis si diverti.


A cidade chama Sahuayo.
Bem que o outro circo avisou: a coisa tá feia por lá, é arriscado vocês irem, o narcotráfico tomou conta da cidade.
Mas chegamos e a impressão que temos é a de mais uma cidade pacata dos interiô, com suas poucas ruas, muitas igrejas e a pivetada acesa à noite lotando a praça principal. Agora entendo a expressão “balançar o coreto”. A balada é no coreto. Caipira, sô.
O hotel tem uma porta de entrada minúscula e do carro a gente já tava xingando o Fabrício, o cara que escolhe onde a gente fica. Mas entramos e vemos uma decoração carérrima num labirinto de três andares e 34 quartos. Impossível. Entramos nos quartos. TV de plasma gigante, DVD, geladeira, microondas, artesania... O cara da recepção diz que a mesa de computador na bancada é porque vão instalar notebook em cada habitação. Tudo isso a preço de diária em motel fuleiro.
Meu quarto chamava “Espelho dos Deuses” e além dos muitos deuses de barro, tinha um céu magnífico pintado no teto, seria esse o tal espelho? Explicado. E borboletas de cerâmica, muitas. Perfeito. Porque não ficamos nesses hotéis em temporada de um mês? Quatro dias: Vamos aproveitar.
No segundo dia já horas depois do show chegam uns capangas no circo perguntando pelos donos. O empregado que os atendeu não sabia dizer em qual hotel estavam hospedados. E escuta um: “No pasa nada, vamos a buscarlos.”
O coitado agarra o cartão com um número de telefone para que o circo entre em contato urgente com a máfia e pague a permissão (denominada finamente de cota) para estar na cidade. Deles.
Começa o pânico. Fabrício desperta geral no hotel mandando trancar bem as portas, que os “Corleones” da cidade querem os donos e era capaz de aparecerem no hotel. Seqüestro?! Ai meu Pai do Céu!!! Nesse labirinto de três andares as calcinhas resolvem ficar justo no térreo... Culpa do excesso de bagagem, difícil subir escada.
Vão seqüestrar os donos, mas antes vão dar uma “estupradinha básica” em cada uma. Faroeste. Acho que vou pôr meu corselet e bota, mas não tenho um saião.
Mulherada muvucada no meu quarto, numa ilusão infantil e confortante de que não fosse acontecer nada só pelo fato de estarmos todas juntas.
Acampamento, alojamento. Estoque de comida. Ninguém sai, ninguém dorme. Eu, Lú, Patty e Bela postando frases sem sentido no Orkut: Os Corleones querem dominar o pico, os Corleones querem o seu Lucas (um dos donos) de aluguel!!
Como se explanar nome de máfia italiana de filme antigo fosse suficiente pra explicar o desespero do momento. Dizem que rir é o melhor remédio, então gargalhávamos com o cú na mão.
Esse hotel tava muito estranho mesmo, nessa cidadezinha “dus cafundó” que não tem nem uma Zara pra gastar? Porque Zara só é foda em país de terceiro mundo mesmo. Vai pra Europa é uma C&A.
Bela diz:
“-Esse hotel é lavagem de dinheiro, maluco. É dos Corleones... Fudeu. Eles sabem que estamos aqui.”
Mas ninguém apareceu e quando lá fora já era de manhã, conseguimos dormir um pouco.
No outro dia os donos dão um “chá de pica mula” pro Distrito Federal. O seu Lucas, que teimou em manter a cidade na nossa rota, vazou e largou a bucha pros pobres aristas trabaiadô. Surge a máfia cobrando o dinheiro no circo, e pede pra ver a função. Sentam no camarote, na cara dos artistas. Verônica em pânico porque o filho pequeno que já trabalha na pista estava muito exposto, poderiam gravar seu rosto e fazer algum mal depois. Nós bailarinas nem olhávamos pros cidadãos do camarote (vai que um se encanta e escolhe “uma di nóis pá cumê?”). Aliás, qualquer um do público era suspeito. Contaram de um caso em que os artistas trabalhavam enquanto várias pistolas eram apontadas por capangas no meio do público, e naquela função todos tinham cara de bandido. Até as crianças, vilõezinhos mexicanos sem bigodinhos. Ainda.
Último ato, agradecimento. Todos os artistas em cena. O “Poderoso Chefão do Agreste” mais pra uma versão mexicana de “Didi Mocó Sonrisal Colesteró” pega o rádio e começa a falar não sei o quê com não sei quem. A cara dos mambembes era de doer. Todo mundo cochichando em cena: “Ele deve estar mandando invadir pra roubar mais a gente”.
É... Levaram o dinheiro dos donos e agora vão partir pros traillers. Devem só esperar que o público vá embora... E a galera que vive no hotel como a gente, vai se fuder por último. Depois de rapelar aqui, vão pra lá.
Acaba a música e eu nunca vi neguinho sair do picadeiro tão rápido.
Voamos pro hotel sem olhar pros lados. Passa uma hora, duas. E a gente relaxa, já mais segura de que era só isso mesmo o que eles queriam. E começa a tirar foto no quarto, já de palhaçada. Dentro do armário escondidas, olhando pro céu pintado no teto, nas pirâmides de Teotihuacan pintadas na parede. E continuo afirmando que o timer da máquina fotográfica é tudo de sucesso. É pedir pra Deus participar do momento e escolher o ângulo dele. Às vezes ele sacaneia. De brincalhão que é.
Já no caminho para a próxima cidade, descobrimos o valor que eles cobraram: dez mil pesos, o que são mais ou menos 700 dólares. Ah, pára. A gente tava pensando em coisa de cem mil no mínimo. Deiz migué, fio?
Nenhum artista foi assaltado e o Chefone mandou um recado:
Foi a melhor função de circo que ele assistiu.
Se não estivéssemos já chegando ao DF, juro que comprava esse saião.
Na Zara, bem folk...
“Que naum tô nas Europa. E sô dos terceiro mundo. Zara é chiiiiique, bein.”